Ainda muito novo, o recém-formado médico, Murilo, deixou as belezas e as delícias do mar do nordeste para se plantar no agreste Tocantins. Deixou Alagoas com seus cantos e encantos. Deixou seus amigos, colegas de jornada estudantil para se embrenhar no babaçual do norte. Deixou sua família, as lembranças mais ternas e profundas da sua terra para construir o seu mundo.
Há quase meio século, Tocantinópolis foi presenteada com a presença rica e marcante do Dr. Murilo. O poeta. O cronista. O contista premiado. O artesão. O pescador. O ambientalista. O sertanejo. O cidadão nota dez. O amigo, sobretudo, dos pobres, o médico que fez do seu ofício um sacerdócio.
Hoje, o Rio Tocantins está mais cheio de água, a água do seu pranto pela ausência de quem conhecia profundamente suas entranhas; de quem navegava de canoa ou de barco suas águas que já foram azuis; de quem denunciava as garças de plástico que continuam sufocando a caminhada do rio rumo ao oceano; de quem protegia do anzol espécies de peixes que ainda precisavam crescer; de quem sabia mais que o IBAMA o tempo da piracema.
Hoje, as palmeiras tocantinenses também choram o voo do seu amante e protetor. O balanço das suas folhas, presentes em seus poemas, em seus contos; a imponência do porte do mais alto coqueiro da região retratada em sua lente; as cuncas cheias flores do campo enfeitando sua casa, tudo transparecia beleza nas mãos do nosso imortal artista e escritor.Hoje, os velhos cansados, o iletrado mas sábio roceiro , os abandonados pelas autoridades ou pela sorte, os doentes do corpo e da alma estão desolados. Perderam seu guru, seu protetor, seu psicoterapeuta, seu doutor, seu amigo.
Hoje, as orquídias, as pedras exóticas, as madeiras mortas, as outras finas belezas desta nossa terra; os bichos mansos ou amedrontados por predadores também lamentam a viagem sem volta do Murilo. Ele amava todos esses seres. Cuidava deles como se fossem seus irmãos, seus filhos, seus netos.
Amanhã, no entanto, haverá uma linda e animada festa no céu. Talvez uma festa sem fim. Uma festa de tocantinenses. Zizi, Cinira, Raimundo Praxedes, Alírio Gomes e tantos outros amigos seus, que se foram antes dele, acham-se com as mãos cheias de rosas e de risos para recebê-lo. Certamente, os mais animados dessa recepção sejam os tipos de rua: Jorge e Maria dos Passarins, cujas fotos tiradas por ele, estão afixadas na parede da sua sala de trabalho.
Agora, nossas almas machucadas sangram com o adeus ao Murilo. Sua vida foi uma festa em meio a seus amigos e admiradores. Sua presença foi também um dicionário que nos encheu de alegria, encantamento, surpresas e imorredouras lições.
Neste momento, aqui reunidos para homenagear o nosso maravilhoso e especial amigo, pedimos a Deus que nos console; que marque com o fogo das estrelas o bem que ele nos fez e que nos ajude a palmilhar suas pegadas rumo à construção do mundo que ele teceu. Que nos anime a viver com honradez, solidariedade, humildade e fortaleza para continuarmos a obra que ele sedimentou nesta terra que o acolheu e o abraçou tão carinhosamente.
Peço, agora, que todos os presentes se abracem como se estivessem abraçando Dr. Murilo. E que, ao final desta missa, cantem o Hino da Boa Vista, obra artística que nos une, enche-nos de entusiasmo e de esperança. E que Deus nos proteja para sempre!
Isabel Dias Neves – Belinha - Academia Tocantinense de Letras - 25/05/2011


