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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

LITERATURA ITPAC 2012 - O MENINO NO ESPELHO- FERNANDO SABINO

O Menino no Espelho, terceiro romance de Fernando Sabino, foi lançado em 1982. Nesta obra o autor nos conta sobre sua infância em Belo Horizonte, na década de 20. Com sotaque mineiro, a criança Sabino nos narra de maneira bem fantasiosa todo o seu mundo imaginário e simples. Conta-nos como Odnanref, sua identidade secreta, aprendeu a voar como os pássaros, como ensinou uma galinha a falar, sobre sua visita ao Sítio do Pica Pau Amarelo, sobre seu cachorro Hidenburgo e seu coelho Pastoof. Fernando começa a brincadeira conversando com seu espelho, aos poucos o reflexo vai tomando forma e vida, tornando-se seu grande amigo e companheiro de todas as suas peripécias e aventuras de criança.
Fernando Sabino relata em primeira pessoa (a própria estrutura do livro é “memorialística”) prováveis episódios sucedidos em seus tempos de infância, porém entremeados por boas doses de ficção, insuflando vida a algumas fantasias próprias da imaginação pueril – o que acaba conferindo ao livro um certo caráter de realismo fantástico.

Como em Peter Pan, o menino Fernando encarna, através de várias de suas travessuras, sonhos e fértil imaginário, a vivacidade e a pureza próprias da criança – como na passagem da libertação dos passarinhos, um libelo metafórico em prol da liberdade e contra a opressão, aliado a uma certa tonalidade anti-militarista – em contraposição ao universo controlado e algumas vezes bestial dos adultos. É o eterno “embate” menino x homem, infância x idade adulta, e como a primeira define a segunda, além de tentar persistir em conservar o máximo possível de sua inocência e imaginação mesmo depois do “amadurecimento”.

Através da prosa simples, poética e próxima do coloquial, além de muitas vezes apresentar-se – sobretudo nas falas do garoto – numa linguagem infantil, Fernando Sabino reconstrói todo o universo particular e inteligente das crianças – respeitando-as na sua complexidade e individualidade -, concebendo-as como simplesmente crianças e não adultos em miniatura – todavia contundentes na formação dos adultos que serão. E para dar mais autenticidade ao texto, é notória a honestidade com que as peripécias e experiências da infância, com todas as suas idiossincrasias e “absurdos”, são relatadas. Todo o sabor da infância – e numa época em que a meninada não conhecia o poder apelativo da Internet e dos videogames - está presente na obra, e com certeza nos fazem recordar a nossa própria infância.

O modo despojado e leve com que narra fatos aparentemente corriqueiros, também. Entretanto, em se tratando de um romance de recordações de seus tempos de criança em sua terra natal, é natural que alguns episódios sejam perceptivelmente fantasiosos. Trata-se sem dúvida de uma daquelas obras de Sabino, em que a naturalidade da narração não diminui em nada o clímax da história. Pelo contrário. A ingenuidade dos pensamentos do protagonista Fernando, quando criança, comove espontaneamente o leitor mais niilista.

Sua narração começa em meio a um temporal, que denunciava grosseiramente as goteiras de sua bucólica residência. Seu pai, sua mãe e irmãos, todos fazem parte da trupe de personagens. Enquanto brincava com as poças de água, provocadas pela chuva, o mesmo Fernando se depara com um homem que conversa brevemente com ele, se despedindo em seguida sem revelar o nome. O menino não sabia quem era aquele misterioso ser. Somente no final do livro é revelado ao leitor o paradeiro do individuo. Tratava-se do próprio escritor, já adulto, que em meio ao lirismo da prosa de Sabino, trava em determinado momento, um singelo contato com a sua versão mirim. Mesmo cercado por fatos prosaicos, tal ocorrido oferta bela dose de emotividade à obra.

Os eventos improváveis e fantasiosos, personificações das quimeras e aventuras imaginárias infantis, figuram na obra descritas com naturalidade e de forma espantosamente real – sem uma sugestiva atmosfera onírica -, desde o poder de fazer milagres que o menino adquire até a incrível descoberta no espelho, episódio que intitula o romance, inclusive de amplitude alegórica – mas que me recuso a discorrer porque resultaria num desagradável spoiler acerca do livro.

O surrealismo presente em O menino no espelho não se restringe à conversa atemporal do homem com a criança. Em dado momento da narração de suas peripécias juvenis, Fernando brinca e conversa com o seu reflexo no espelho, que por sua vez, ganha vida e passa a agir em vários momentos como o seu duplo. Tornam-se grandes amigos. Porém, quando descoberto por terceiros, o reflexo retorna ao seu mundo, o espelho, de onde jamais sairia novamente. Outros saudosos episódios infantis são contados primorosamente, como o primeiro amor, sua relação com os colegas da escola, a torcida pelo América de Belo Horizonte, o seu clube do coração, as brincadeiras com a amiguinha Mariana e o apego aos animais de estimação que povoavam a casa: um cachorro, um coelho, um papagaio e uma galinha, a quem batizou de Fernanda e salvou da “degola” na véspera desta se tornar o prato do dia na refeição.

Texto 1
O homem disse que tinha de ir embora – antes queria me ensinar uma coisa muito importante:

– Você quer conhecer o segredo de ser um menino feliz para o resto da vida?

– Quero – respondi.

O segredo se resumia em três palavras, que ele pronunciou com intensidade, mãos nos meus ombros e olhos nos meus olhos:

– Pense nos outros.

Na hora achei esse segredo meio sem graça. Só bem mais tarde vim a entender o conselho que tantas vezes na vida deixei de cumprir. Mas que sempre deu certo quando me lembrei de segui-lo, fazendo-me feliz como um menino. (SABINO, Fernando. O menino no espelho. 64 ed)

Questão 38

Considerando o Texto 1, é CORRETO afirmar que:

01. os pronomes sublinhados no trecho: sempre deu certo quando me lembrei de segui-lo (linhas 8 e 9) fazem referência, respectivamente, ao menino Fernando e ao homem Fernando.

02. a palavra que nas três ocorrências sublinhadas no texto (linhas 1, 4 e 7) está funcionando como pronome relativo, pois ao mesmo tempo em que liga orações também aponta para um antecedente.

04. o trecho: Só bem mais tarde vim a entender o conselho que tantas vezes na vida deixei de cumprir (linhas 7 a 9) pode ser substituído por: bem mais tarde é que vim a entender o conselho que tantas vezes na vida deixei de cumprir, já que tanto a expressão só como é que são recursos lingüísticos indicadores de ênfase.


08. a expressão verbal deixei de cumprir (linha 9) foi empregada para indicar anterioridade ao marco temporal passado vim a entender (linha 8).


16. o fragmento: Mas que sempre deu certo quando me lembrei de segui-lo (linhas 8-9) aponta uma causa cuja conseqüência está presente em: fazendo-me feliz como um menino (linhas 9).

Gabarito: 28 (04 + 08 + 16)
Questão 39

Assinale a(s) proposição(ões) CORRETA(S) a respeito de O menino no espelho, de Fernando

Sabino e do Texto 1.
01. É um romance biográfico, em flash-back, em que o narrador/protagonista relata aventuras

da infância de seu pai, como se pode constatar no Texto 5.
02. A atmosfera de infância, de aventuras e de invenções, evidenciada em episódios como o da revelação da Sociedade Secreta “Olho de Gato”, perpassa toda a narrativa.
04. A inversão “O menino e o homem” (prólogo) versus “O homem e o menino” (epílogo) pode ser aproximada à epígrafe do livro “O menino é o pai do homem”, de William Wordsworth, evocando a idéia de que o menino Fernando determinou o homem Fernando.

08. O detalhamento descritivo na criação de cenas é abundante em todo o romance, como é possível perceber em: Quando chovia... todo mundo levando e trazendo baldes, bacias, panelas, penicos... me divertia a valer quando uma nova goteira aparecia (p. 13).

16. O protagonista pode ser comparado a um herói quixotesco, ou bem-intencionado, uma

vez que está sempre em busca de conflitos para resolvê-los, como quando salva a galinha de “virar” molho pardo ou quando liberta todos os pássaros do viveiro do vizinho.
Gabarito: 30 (02 + 04 + 08 + 16)

QUESTÃO 14

Sobre O Menino no Espelho, de Fernando Sabino, todas as alternativas estão corretas, EXCETO

A) A narrativa apresenta o menino Fernando como leitor de histórias infantis e revistas em quadrinhos, tais como as de Robinson Crusoé, do Sítio do Pica-pau Amarelo, de Alice no país das maravilhas, de Tarzã e de Mandrake.

B) Os personagens dos livros e das histórias em quadrinhos vão seduzir o menino e motivá-lo a construir os seus brinquedos e histórias fantásticas.

C) O personagem Odnanref, que saiu do espelho, ajuda o menino Fernando a conseguir vencer o valentão de sua escola, Birica.

D) O autor Fernando Sabino utiliza o jogo dos espelhos como uma forma de fazer uma reflexão sobre a alma exterior e interior do ser humano.

C

17. Sobre O Menino no Espelho, todas as alternativas abaixo são corretas, exceto:

A- É o romance de Fernando Sabino que alcançou maior repercussão. "Publicado em 1956, é ainda bem aceito por tratar de uma geração. Não a dos anos vinte, mas a dos vinte anos, daí a sua permanência."

B-O romance narra as aventuras do garoto Fernando (próprio autor), que vai desde uma cumplicidade árdua com a galinha Fernanda, a quem salva da morte, passando por grandes aventuras com personagens das histórias infantis, e pelo Sítio do Pica-Pau Amarelo.

C - O protagonista Fernando torna-se o agente secreto Odnanref, campeão de futebol, herói escoteiro, o mais forte da escola.

D- Fernando Sabino, ainda menino diante do espelho, nos remete a um universo infantil intimista, na projeção de um ideal de pureza e ingenuidade que só uma criança poderia alcançar.

E - Andar de bicicleta, empinar uma pipa ou jogar bolinha de gude são coisas que se aprende quando se é criança para nunca mais esquecer. O menino que se vê refletido no espelho descobre o melhor de si mesmo e, como disse William Wordsworth, torna-se pai do homem.


A

LITERATURA ITPAC 2012 - GRANDE SERTAO VEREDAS


Guimaraes Rosa
O único romance escrito por Rosa, publicado no mesmo ano que Corpo de Baile [1956]. Obra-prima, traduzida para muitas línguas, é uma narrativa em que a experiência de vida e de texto se fundem numa obra fascinante, permanentemente desafiadora.
O romance se constrói como uma longa narrativa oral, Riobaldo, um velho fazendeiro, ex-jagunço, conta sua experiência de vida a um interlocutor, que jamais tem a palavra e cuja fala é apenas sugerida.

Conta histórias de vingança, seus amores, perseguições, lutas pelos sertões de Minas, de Goiás, do sul da Bahia, tudo isso entremeado de reflexões sobre tudo. Os demais personagens falam pela boca de Riabaldo, valendo-se de seu estilo de narrar e de suas características lingüísticas individuais.

As histórias de vingança, vão sendo emendadas, articulando-se com a preocupação do narrador de discutir a existência ou não do diabo , do que depende a salvação de sua alma.
Ocorre que , em sua juventude, para vencer seu grande inimigo Hermógenes, Riabaldo parece ter feito um pacto com o demo. Embora em muitos momentos isso pareça evidente, a existência ou não do pacto fica por conta das interpretações do leitor.

O poder corrosivo do tempo passado confunde os acontecimentos na mente do narrador, impedindo-o de separar o falso do verdadeiro, o vivido do imaginado. A opção pelo monólogo de caráter memorialista implica, no plano da narrativa, distribuição caótica da memória . Dessa forma, a linguagem assume, para o narrador, um poder mágico.

Falar a própria vida constitui a matéria narrativa, mas as dificuldades do viver e do narrar por distorcerem as duas práticas criam um texto ambíguo, tão enigmático quanto à vida, onde tudo é e não é, simultaneamente.

Além desses casos ligados à busca de Hermógenes e Ricardão, assassinos do chefe Joca Ramiro, e que constituem um dos fios da narrativa, existe também o plano amoroso. O amor de Diadorim é motivo de grandes preocupações para o narrador. Na verdade, Riobaldo conhece Diadorim a vida toda como homem- o valente guerreiro Reinaldo e só toma conhecimento de sua identidade feminina no final da luta, quando Diadorim é morto por Hermógenes.

De maneira geral , os críticos apontam tres planos no romance. O plano da vida de jagunçagem, que permite rastear os componentes geoeconômico-político sociais do sertão: o plano das reflexões, criado pelos temores de Riabaldo velho, revendo e avaliando o passado e sua própria vida; o plano mítico, centrado nos conflitos representados pelas forças da natureza.
O fragmento que transcrevemos de Grande Sertão: Veredas, traduz algumas reflexões de Riobaldo sobre a existência do diabo:
' Explico ao senhor, o diabo vive dentro do homem, os crespos do homem- ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si , cidadão, é que não tem diabo nenhum .Nenhum! é o que digo O senhor aprova? Me declare tudo, franco - é alta mercê que me faz; e pedir posso, encarecido. Este caso- por estúrdio que me vejam - é de minha certa importância. Tomara não fosse...

Mas, não diga que o senhor, instruído, que acredita na pessoa dele? Não? Lhe agradeço! Sua alta opinião compõe minha valia. Já o campo! Ah, a gente , na velhice, carece de Ter sua aragem de descanso. Lhe agradeço. Tem diabo nenhum. Nem espírito, Nunca vi. Alguém devia de ver, então era eu mesmo, este vosso servidor. Fosse lhe contar... Bem , o diabo regula seu estado preto, nas criaturas, nas mulheres, nos homens. Até : nas crianças- eu digo. Pois não é ditado:' menino- trem do diabo'? E nos usos , nas plantas , nas águas, na terra, no vento... Estrumes....O diabo na rua , no meio do redemoinho

QUESTOES

1. (UFMG) Considerando-se a narração do julgamento de Zé Bebelo, em Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa, é CORRETO afirmar que esse fato:
(A) significou a chegada de nova ordem jurídica ao sertão.

(B) aumentou o poder dos grandes chefes de jagunços.

(C) representou a continuidade do mando de Joca Ramiro.

(D) legitimou o princípio da vingança e o uso da violência.

2. (UFMG) É CORRETO afirmar que, entre os elementos que evidenciam a presença de intertextualidade na composição de Grande sertão: veredas, NÃO se inclui:

(A) o caso de Maria Mutema e Padre Ponte.

(B) a lembrança recorrente da toada de Siruiz.

(C) o relato do assassinato do chefe Zé Bebelo.

(D) a narração do pacto de Riobaldo com o diabo.

3. (UNIFESP) Leia o texto a seguir e responda à questão.
Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem — ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum! — é o que digo. O senhor aprova? Me declare tudo, franco — é alta mercê que me faz: e pedir posso, encarecido. Este caso — por estúrdio que me vejam — é de minha certa importância. Tomara não fosse... Mas, não diga que o senhor, assisado e instruído, que acredita na pessoa dele?! Não? Lhe agradeço! Sua alta opinião compõe minha valia. Já sabia, esperava por ela — já o campo! Ah, a gente, na velhice, carece de ter uma aragem de descanso. Lhe agradeço. Tem diabo nenhum. Nem espírito. Nunca vi. Alguém devia de ver, então era eu mesmo, este vosso servidor. Fosse lhe contar... Bem, o diabo regula seu estado preto, nas criaturas, nas mulheres, nos homens. Até: nas crianças — eu digo. Pois não é o ditado: “menino — trem do diabo”? E nos usos, nas plantas, nas águas, na terra, no vento... Estrumes... O diabo na rua, no meio do redemunho... (Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas.)

A fala expressa no texto é de Riobaldo. De acordo com o narrador, o diabo:
(A) vive preferencialmente nas crianças, livre e fazendo as suas traquinagens.

(B) é capaz de entrar no corpo humano e tomar posse dele, vivendo aí e perturbando a vida do homem.

(C) só existe na mente das pessoas que nele acreditam, perturbando-as mesmo sem existir concretamente.

(D) não existe como entidade autônoma, antes reflete os piores estados emocionais do ser humano.

(E) é uma condição humana e não está relacionado com as coisas da natureza.

4. (UNIFESP) Leia o texto a seguir e responda à questão.
Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem — ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum! — é o que digo. O senhor aprova? Me declare tudo, franco — é alta mercê que me faz: e pedir posso, encarecido. Este caso — por estúrdio que me vejam — é de minha certa importância. Tomara não fosse... Mas, não diga que o senhor, assisado e instruído, que acredita na pessoa dele?! Não? Lhe agradeço! Sua alta opinião compõe minha valia. Já sabia, esperava por ela — já o campo! Ah, a gente, na velhice, carece de ter uma aragem de descanso. Lhe agradeço. Tem diabo nenhum. Nem espírito. Nunca vi. Alguém devia de ver, então era eu mesmo, este vosso servidor. Fosse lhe contar... Bem, o diabo regula seu estado preto, nas criaturas, nas mulheres, nos homens. Até: nas crianças — eu digo. Pois não é o ditado: “menino — trem do diabo”? E nos usos, nas plantas, nas águas, na terra, no vento... Estrumes... O diabo na rua, no meio do redemunho... (Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas.)

A personagem Riobaldo dialoga com alguém que chama de senhor. Embora a fala dessa personagem não apareça, é possível recuperar, pela fala do narrador, os momentos em que seu interlocutor se manifesta verbalmente. Isso pode ser comprovado pelo trecho:

(A) O senhor aprova?

(B) Nenhum! — é o que digo.

(C) Não? Lhe agradeço!

(D) Tem diabo nenhum.

(E) Até: nas crianças — eu digo.

5. (UNIFESP) Leia o texto a seguir e responda à questão.

Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem — ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum! — é o que digo. O senhor aprova? Me declare tudo, franco — é alta mercê que me faz: e pedir posso, encarecido. Este caso — por estúrdio que me vejam — é de minha certa importância. Tomara não fosse... Mas, não diga que o senhor, assisado e instruído, que acredita na pessoa dele?! Não? Lhe agradeço! Sua alta opinião compõe minha valia. Já sabia, esperava por ela — já o campo! Ah, a gente, na velhice, carece de ter uma aragem de descanso. Lhe agradeço. Tem diabo nenhum. Nem espírito. Nunca vi. Alguém devia de ver, então era eu mesmo, este vosso servidor. Fosse lhe contar... Bem, o diabo regula seu estado preto, nas criaturas, nas mulheres, nos homens. Até: nas crianças — eu digo. Pois não é o ditado: “menino — trem do diabo”? E nos usos, nas plantas, nas águas, na terra, no vento... Estrumes... O diabo na rua, no meio do redemunho... (Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas.)
O texto de Guimarães Rosa mostra uma forma peculiar de escrita, denunciada pelos recursos lingüísticos empregados pelo escritor. Dentre as características do texto, está:

(A) o emprego da linguagem culta, na voz do narrador, e o da linguagem regional, na voz da personagem.

(B) a recriação da fala regional no vocabulário, na sintaxe e na melodia da frase.

(C) o emprego da linguagem regional predominantemente no campo do vocabulário.

(D) a apresentação da língua do sertão fiel à fala do sertanejo.

(E) o uso da linguagem culta, sem regionalismos, mas com novas construções sintáticas e rítmicas.

6. (IBMEC) Utilize o texto a seguir para responder ao teste.
Amor e morte
“Eu dizendo que a Mulher ia lavar o corpo dele. Ela rezava rezas da Bahia. Mandou todo o mundo sair.

Eu fiquei. E a Mulher abanou brandamente a cabeça, consoante deu um suspiro simples. Ela me mal- entendia.

Não me mostrou de propósito o corpo. E disse…

Diadorim — nu de tudo. E ela disse:

— ‘A Deus dada. Pobrezinha…’

E disse. Eu conheci! Como em todo o tempo antes eu não contei ao senhor — e mercê peço: — mas para o senhor divulgar comigo, a par, justo o travo de tanto segredo, sabendo somente no átimo em que eu também só soube… Que Diadorim era o corpo de uma mulher, moça perfeita… estarreci. A dor não pode mais do que a surpresa.

A coice d’arma, de coronha…

Ela era. Tal que assim se desencantava, num encanto tão terrível; e levantei mão para me benzer — mas com ela tapei foi um soluçar, e enxuguei as lágrimas maiores. Uivei. Diadorim! Diadorim era uma mulher. Diadorim era mulher como o sol não acende a água do rio Urucúia, como eu solucei meu desespero.

O senhor não repare. Demore, que eu conto. A vida da gente nunca tem termo real.

Eu estendi as mãos para tocar naquele corpo, e estremeci, retirando as mãos para trás, incendiável; abaixei meus olhos. E a Mulher estendeu a toalha, recobrindo as partes. Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca.

Adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com tesoura de prata… Cabelos que, no só ser, haviam de dar para abaixo da cintura… E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:

— ‘Meu amor!…’

Foi assim. Eu tinha me debruçado na janela, para poder não presenciar o mundo.

A Mulher lavou o corpo, que revestiu com a melhor peça de roupa que ela tirou da trouxa dela mesma. No peito, entre as mãos postas, ainda depositou o cordão com o escapulário que tinha sido meu, e um rosário, de coquinhos de ouricuri e contas de lágrimas-de-nossa- senhora. Só faltou — ah! — a pedra-de-ametista, tanto trazida…

O Quipes veio, com as velas, que acendemos em quadral. Essas coisas se passavam perto de mim. Como tinham ido abrir a cova, cristãmente. Pelo repugnar e revoltar, primeiro eu quis: — ‘Enterrem separado dos outros, num aliso de vereda, adonde ninguém ache, nunca se saiba … ’ Tal que disse, doidava. Recaí no marcar do sofrer. Em real me vi, que com a Mulher junto abraçado, nós dois chorávamos extenso. E todos meus jagunços decididos choravam… Daí, fomos, e em sepultura deixamos, no cemitério do Paredão enterrada, em campo do sertão.

Ela tinha amor em mim.

E aquela era a hora do mais tarde. O céu vem abaixando. Narrei ao senhor. No que narrei, o senhor talvez até ache mais do que eu, a minha verdade. Fim que foi.” (ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: veredas. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1986, p. 530-1)
A que verdade Riobaldo, o narrador, se refere?

(A) Ao fato de que Diadorim andava disfarçada porque não correspondia ao sentimento que Riobaldo nutria por ela.

(B) Ao fato de tanto terem lutado e, mesmo assim, perderem a luta pela posse e domínio das terras do lugar.

(C) Ao misticismo que acompanhava Diadorim. Tanto é que se fez enterrar com escapulário, rosário e pedra de ametista.

(D) Ao iminente fim do bando a partir da morte de Diadorim que era comandante da tropa.

(E) Ao fato de que ele se sentia totalmente atraído por Diadorim, mesmo antes de saber que ela era mulher.


7. (IBMEC) Utilize o texto a seguir para responder ao teste.

Amor e morte

“Eu dizendo que a Mulher ia lavar o corpo dele. Ela rezava rezas da Bahia. Mandou todo o mundo sair.

Eu fiquei. E a Mulher abanou brandamente a cabeça, consoante deu um suspiro simples. Ela me mal-entendia.

Não me mostrou de propósito o corpo. E disse…

Diadorim — nu de tudo. E ela disse:

— ‘A Deus dada. Pobrezinha…’

E disse. Eu conheci! Como em todo o tempo antes eu não contei ao senhor — e mercê peço: — mas para o senhor divulgar comigo, a par, justo o travo de tanto segredo, sabendo somente no átimo em que eu também só soube… Que Diadorim era o corpo de uma mulher, moça perfeita… estarreci. A dor não pode mais do que a surpresa.

A coice d’arma, de coronha…

Ela era. Tal que assim se desencantava, num encanto tão terrível; e levantei mão para me benzer — mas com ela tapei foi um soluçar, e enxuguei as lágrimas maiores. Uivei. Diadorim! Diadorim era uma mulher. Diadorim era mulher como o sol não acende a água do rio Urucúia, como eu solucei meu desespero.

O senhor não repare. Demore, que eu conto. A vida da gente nunca tem termo real.

Eu estendi as mãos para tocar naquele corpo, e estremeci, retirando as mãos para trás, incendiável; abaixei meus olhos. E a Mulher estendeu a toalha, recobrindo as partes. Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca.

Adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com tesoura de prata… Cabelos que, no só ser, haviam de dar para abaixo da cintura… E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:

— ‘Meu amor!…’

Foi assim. Eu tinha me debruçado na janela, para poder não presenciar o mundo.

A Mulher lavou o corpo, que revestiu com a melhor peça de roupa que ela tirou da trouxa dela mesma. No peito, entre as mãos postas, ainda depositou o cordão com o escapulário que tinha sido meu, e um rosário, de coquinhos de ouricuri e contas de lágrimas-de-nossa-senhora. Só faltou — ah! — a pedra-de-ametista, tanto trazida…

O Quipes veio, com as velas, que acendemos em quadral. Essas coisas se passavam perto de mim. Como tinham ido abrir a cova, cristãmente. Pelo repugnar e revoltar, primeiro eu quis: — ‘Enterrem separado dos outros, num aliso de vereda, adonde ninguém ache, nunca se saiba… ’ Tal que disse, doidava. Recaí no marcar do sofrer. Em real me vi, que com a Mulher junto abraçado, nós dois chorávamos extenso. E todos meus jagunços decididos choravam… Daí, fomos, e em sepultura deixamos, no cemitério do Paredão enterrada, em campo do sertão.

Ela tinha amor em mim.

E aquela era a hora do mais tarde. O céu vem abaixando. Narrei ao senhor. No que narrei, o senhor talvez até ache mais do que eu, a minha verdade. Fim que foi.” (ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: veredas. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1986, p. 530-1)

O texto nos apresenta um suposto interlocutor que nunca toma a palavra. A conversa de Riobaldo com o tal interlocutor revela que:
(A) De fato o narrador fez um pacto com o diabo e o “diálogo vazio” era conseqüência deste ato.

(B) Para Riobaldo servia como reflexão em voz alta sobre os mistérios da condição humana.


(C) A carência do jagunço era tamanha que, em vários momentos, ele desanda a falar como se fosse uma ameaça à própria existência.

(D) É um recurso estilístico muitíssimo utilizado, servindo para o autor como desabafo perante tanta dor e tanta miséria.

(E) É recurso característico dos textos dissertativos já que o que se busca é o fundamento para a argumentação.

8. (ESPM) Leia o texto:

O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas — mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão. E, outra coisa: o diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro — dá gosto! A força dele, quando quer — moço! —me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho — assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza.” (Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa)
Marque a afirmação que NÃO corresponde:

(A) trata-se de uma narrativa oral, perceptível pelo uso de vocativos como “senhor” e “moço”.

(B) Deus age sutilmente (“lei do mansinho”), enquanto o diabo o faz de maneira escancarada (“às brutas”)

(C) na vida, tudo flui incessantemente, nada é estático: “as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas”.

(D) o milagre resulta do inesperado, do modo contido (“se economiza”), e não do espalhafatoso.

(E) o termo “traiçoeiro” atribuído a Deus possui um sentido pejorativo, depreciativo.

9. (UNIFESP/SP)
(...) Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor. E a vida do homem está presa encantoada – erra rumo, dá em aleijões como esses, dos meninos sem pernas e braços. (...) (Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas.)
O texto de Guimarães Rosa mostra uma forma peculiar de escrita, denunciada pelos recursos lingüísticos empregados pelo escritor. Dentre as características do texto, está:

(A) o emprego da linguagem culta, na voz do narrador, e o da linguagem regional, na voz da personagem;

(B) a recriação da fala regional no vocabulário, na sintaxe e na melodia da frase;

(C) o emprego da linguagem regional predominantemente no campo do vocabulário;

(D) a apresentação da língua do sertão fiel à fala do sertanejo;

(E) o uso da linguagem culta, sem regionalismos, mas com novas construções sintáticas e rítmicas.

10. (IELUSC) Texto para a próxima questão:
O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucúia. Toleima. [...] Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar, dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. (Guimarães Rosa)

O texto é um fragmento de Grande sertão: veredas (1956), único romance de Guimarães Rosa. Sobre esta grandiosa obra, assinale a alternativa CORRETA.

(A) Trata-se de uma história em que o autor fala da vida dos cangaceiros, “os errantes sem eira nem beira”, que sofriam com o calor das matas amazônicas.

(B) É uma história apresentada como um imenso monólogo em que Riobaldo, ex-jagunço do norte de Minas e agora pacato fazendeiro, conta os casos que viveu a um compadre.

(C) Conta a saga de Severino, um retirante que atravessa o sertão de Pernambuco em busca de uma vida mais digna.

(D) Narra a história de amor entre Gabriela e Nacib, tendo os traços exóticos da região de Ilhéus como cenário.

(E) Valendo-se do realismo fantástico em sua segunda parte, traz, como personagens centrais, mortos que ressuscitam para denunciar a corrupção dos vivos.

11. (UNILAVRAS) Com relação à obra Grande Sertão: veredas, de João Guimarães, podemos afirmar:
I- O personagem principal, Riobaldo, é um exjagunço do norte de Minas que gasta seu tempo com conversas com as pessoas que passam pelo local.

II- Riobaldo, o personagem-narrador conta sua vida, numa espécie de monólogo ininterrupto, a um interlocutor que jamais tem a palavra.

III- O narrador-personagem, apesar de ter pertencido à plebe rural e ter aderido à jagunçagem, recebeu educação formal, o que justifica o caráter metafísico de seu discurso.
(A) Apenas a alternativa I está correta.

(B) Apenas a alternativa II está correta.

(C) Apenas a alternativa III está correta.

(D) Estão corretas apenas as alternativas II e III.

(E) Todas as alternativas estão corretas.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

LITERATURA DA UFT 2012- CONTOS FLUMINENSES - MACHADO DE ASSIS

RESUMO DA OBRA


CONTOS FLUMINENSES
GÊNERO: NARRATIVO
CATEGORIA: CONTOS
ESTILO: REALISMO – PROSA


Machado de Assis

Joaquim Maria Machado de Assis é considerado o maior nome da literatura brasileira do século XIX. Nasce na cidade do Rio de Janeiro e, de família pobre, passa a infância no morro do Livramento. Órfão de mãe, é criado pela madrasta. Freqüenta o curso primário em uma escola pública e aprende francês e latim com um padre amigo da família.
Trabalha como aprendiz de tipógrafo, revisor e funcionário público. Aos 16 anos publica o primeiro poema, Ela, na revista Marmota Fluminense. A partir de 1858 colabora em órgãos de imprensa. É um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, em 1896, e, no ano seguinte, torna-se seu primeiro presidente. Sua obra de romancista costuma ser dividida em duas fases.

A primeira é marcada pela presença de características românticas na apresentação dos personagens. Desse período são Contos Fluminenses, Ressurreição (1872), seu livro de estréia, A Mão e a Luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878).
À segunda fase pertencem Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1892), Dom Casmurro (1900) e Memorial de Aires (1908).

Nessas obras transparece o interesse pela análise psicológica dos personagens, uma característica do movimento realista.
Escreve ainda poemas, crônicas, peças de teatro, críticas teatrais e literárias. Morre de câncer em sua cidade natal

CONTOS FLUMINENSES

O conto machadiano

Diferentemente do que faz nas narrativas longas, Machado de Assis obedece, nas histórias curtas, aos princípios essenciais do gênero: concisão, rapidez e unidade dramática. O maior dos contistas, o russo Tchecov, dizia que, se num conto aparecesse uma espingarda pendurada em alguma parede, ela deveria disparar imediatamente, sob pena de não fazer sentido a sua presença naquele relato.

Para Machado de Assis, o conto, com seu núcleo temático e narrativo reduzido e sua força expressiva altamente concentrada, serviria para flagrar aspectos psicológicos da natureza humana

Tornou-se convencional a divisão da obra machadiana em duas fases. A primeira, impropriamente chamada “romântica”, abrange a produção literária entre 1870 e 1880 e engloba os romances Ressurreição, A Mão e a Luva, Helena e Iaiá Garcia, os livros de contos Contos Fluminenses e Histórias da Meia-Noite, e as poesias de Crisálidas, Falenas e Americanas. A segunda fase, conhecida como realista, configura a maturidade artística de Machado e inclui os romances Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó e Memorial de Aires, os livros de contos Papéis Avulsos, Histórias sem Data, Várias Histórias, Páginas Recolhidas e Relíquias da Casa Velha, e o livro de poesias Ocidentais.

Os contos de maturidade de Machado de Assis têm para o gênero a mesma importância revolucionária que Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro têm para o romance na Literatura brasileira.

O marco inicial da fase realista, o “salto qualitativo”, deu-se entre 1881 e 1882, como o romance Memórias Póstumas (1881), como os contos de Papéis Avulsos (1882) e com as poesias de Ocidentais (1882).

Não se pense, contudo, numa ruptura entre as duas fases, num salto abrupto, numa oposição diametral entre a obra dita “romântica” e a obra realista.

A crítica mais moderna tem observado que muito do Machado realista, maduro, já estava em seus primeiros livros. Assim, prefere denominar “convencionais”, e não “românticos”, os livros da primeira fase, anteriores ao Memórias Póstumas, ao Papéis Avulsos e aos poemas de Ocidentais. A fusão de ingredientes convencionais e antecipações realistas observa-se sobretudo nos romances e nos contos.

Mesmo nos livros impropriamente chamados “românticos” estão presentes a observação psicológica das personagens, o interesse como móvel principal e ações humanas, o humor reflexivo e o estilo conciso, distante da linguagem adjetivosa dos românticos. Ainda que haja tipos e situações convencionais da ficção romântica, a tensão bem X mal, herói X vilão não existe, e as heroínas agem calculadamente por interesse na obtenção de status, na ascensão social através do casamento.

Nos livros de Machado de Assis, o que mais interessa não é a ação externa, o enredo, mas o modo pelo qual o externo interfere no interno, ou seja, tudo aquilo que na ação pode ser revelador da psicologia dos personagens.

A “explosão” realista de Memórias Póstumas e Papéis Avulsos de há muito vinha sedimentando seu caminho, e a “ruga sardônica” de Quincas Borba, o “homem do subterrâneo”, o “monstro de lucidez”, o “bruxo do Cosme Velho” já vinham de longa e paciente gestação. Não há dois Machados, um romântico, outro realista; há um só, acima dos modismos dessas duas (e de outras) escolas.

Segundo Eduardo M. França, pode-se delimitar os temas abordados na obra de Machado de Assis, nesta primeira fase, como fundamentais e mais recorrentes: (1) o pessimismo em relação às capacidades do homem, (2) o personagem-artista em busca da perfeição, (3) a formação da identidade, (4) a relatividade, (5) a preferência por uma análise da psicologia universal, (6) o sentido do ato, (7) a personagem feminina, (8) a loucura, (9) a tomada do homem como objeto do próprio homem e, por

fim, (10) a tomada da fantasia como realidade.

CONTOS FLUMINENSES

Miss Dollar

Luís Soares

A Mulher de Preto

O Segredo de Augusta

Confissões de uma Viúva

Linha Reta e Linha Curva

Frei Simão

Primeiro volume de contos de Machado de Assis, Contos Fluminenses está relacionado ao Rio de Janeiro no período imperial. O conto mais famoso é "Miss Dollar". A maioria das narrativas, pela sua extensão, trama e estrutura, podem ser consideradas como novelas.

A obra Contos Fluminenses faz parte da primeira fase de Machado de Assis, que estava preso aos moldes estéticos do Romantismo. Os contos machadianos considerados românticos, apresentam uma característica comum: os acontecimentos são narrados sem precipitação, entremeados de explicações aos leitores por parte do narrador, cheios de considerações sobre os comportamentos. Suas personagens não são tão lineares como as dos maiores românticos: elas têm comportamentos imprevistos, fazem maquinações, não transparentes, são interesseiras. Mas a estrutura narrativa de Machado, nessa fase, ainda é linear, isto é, as narrativas têm começo, meio e fim demarcados.

Nessa fase romântica, a angústia oculta ou patente das personagens é determinada pela necessidade de obtenção de status, quer pela aquisição de patrimônio, quer pela consecução de um matrimônio com parceiro mais abonado. A mentira é punida ou desmacarada. Há nisso um laivo de moralismo romântico, na pregação de casos exemplares.

A crítica considera apenas medianos os contos desse livro. De qualquer forma, já aparecem as características marcantes do estilo machadiano: a conversa com o leitor; a ironia; o estudo da alma feminina. Esboçam, em finos retratos femininos, a força do papel social como segunda e imposta natureza e as pressões que impelem os personagens a mudar de status ou classe social.



O conto "Miss Dollar" conta a história de uma viúva cética quanto ao amor de seus pretendentes por causa da convivência com o falecido marido, interessado apenas em seu dinheiro. Uma cadelinha chamada Miss Dollar foge de casa e é encontrada por Mendonça, um jovem médico colecionador de cachorros. Ao ver o anúncio dos donos da cachorra, decide devolvê-la. Conhece assim Margarida, uma viúva ainda moça por quem se apaixona. A moça parece não corresponder aos seus sentimentos. Mendonça, depois de algum tempo, resolve mandar-lhe uma carta a qual é respondida secamente. Fica muito triste e pensa em desistir da bela moça até que D. Antônia, tia de Margarida o procura para contar-lhe que a sobrinha o ama e que o evita por medo de que ele seja apenas mais um golpista, como foi seu finado marido e todos os outros pretendentes que surgiram depois. Ela pede que ele vá vê-la e o inevitável, segundo Margarida, acontece. Casam-se. No início ela desconfia de suas intenções reais mas percebe, com o tempo, que seu amor é sincero. E, para terminar a história, Miss Dollar, responsável pela união de Margarida e Mendonça, é atropelada e morre.



Em "O segredo de Augusta", Vasconcelos resolve casar sua filha de apenas 15 anos ao descobrir ter perdido grande parte de sua fortuna. notamos algumas passagens recheadas de ironias e críticas à sociedade fluminense, que são desferidas tanto pelo narrador como pelas personagens. O segredo de Augusta, narrado em terceira pessoa, apresenta para o leitor um narrador onisciente, posto que conhece tudo acerca da história; ele também pode ser classificado como um narrador onipresente, já que está presente em todos os lugares da narrativa.

A história se passa na capital fluminense, século XIX e abarca a vida e os costumes de uma elite decadente. Ademais, acentuamos que o tempo cronológico é contemplado no conto, uma vez que “a história transcorre na ordem natural dos fatos, ou seja, do começo para o final.” Inexiste nessa narrativa o chamado tempo psicológico.

Os espaços utilizados na história são poucos. Desse modo, as ações desenvolvem-se mormente na casa de Augusta, em algumas ruas do Rio de Janeiro, num hotel e no Alcazar.

Faz-se necessário destacar os conflitos do conto. O principal deles é o segredo de Augusta, que consiste na relação da personagem protagonista com a passagem do tempo e num possível casamento de sua filha, pois seu maior medo está calcado na velhice; para ela essa chegará quando Adelaide contrair núpcias e tiver filhos. Augusta não quer de maneira nenhuma transformar-se em avó. Esse conflito explicitado anteriormente, por sua vez, acaba esbarrando num outro que se desencadeia quando Vasconcelos descobre que está falido, pois a solução achada pelo marido da vaidosa personagem é o casamento de Adelaide com Gomes. Ora, sendo assim, pode-se dizer que o conflito principal de Augusta engloba o outro conflito que surge no decorrer da narrativa, que é tentativa do marido recuperar o dinheiro através do matrimônio da filha.



O tema da traição, suposta ou real, antes de aparecer em D. Casmurro, já estava nos contos "A mulher de preto" e "Confissões de uma viúva moça".

O casamento por interesse é constante na obra de Machado de Assis, principalmente em sua fase romântica. Contos Fluminenses traz outros cinco contos. Entre eles:

"A mulher de preto",

"Linha reta e linha curva". Ernesto Azevedo e Adelaide são recém-casados, moradores de Petrópolis, que acolhem com frequência a visita de amigos. Um deles é Tito, solteirão convicto que acaba de chegar de uma longa viagem. Na casa dos anfitriões, Tito encontra a jovem e bela viúva Emília. A partir daí os dois começam um jogo de sedução e escárnio, disputas e afetos, até que chega o momento das verdades sobre a mesa.

"Confissões de uma viúva moça", carta de uma mulher enganada por um sedutor barato. Eugênia afasta-se de todos os amigos durante dois anos, após a morte do marido. Até que resolve escrever à amiga Lia narrando as razões dessa solidão. Promete escrever oito cartas em oito dias e diz que depois irá reintegrar-se à vida normal. Nas cartas, conta que era feliz com o marido, Roberto, até o dia em que ele encontrou num teatro um velho amigo, Emílio, e este, tornando-se íntimo da casa, aproveita um dia a ausência de Roberto para declarar-lhe amor. Eugênia fica indignada e Emílio se afasta, só voltando no dia em que Roberto insistiu muito para que não faltasse a uma festa lá. Mas agora Eugênia mudara seus sentimentos em relação a Emílio e também passara a amá-lo.



QUESTÕES SOBRE MACHADO DE ASSIS E CONTOS FLUMINENESES

01. (UFCE - adaptada) Assinale as afirmativas corretas relativamente à personalidade literária de Machado de Assis.

a. Iniciou sua carreira literária sob o signo do Romantismo.

b. Em seus romances Helena e Iaiá Garcia, ainda se encontra esteticamente vinculado à maneira romântica.

c. autor repartiu sua produção por vários gêneros, atingindo o ponto mais alto na crítica literária.

d. A obra poética do autor revela-o como um criador de fina sensibilidade.

e. Na linha do romance psicológico, afirma-se o autor como um dos pioneiros da ficção brasileira.

2. (UEM-PR) Assinale a alternativa incorreta sobre Machado de Assis.

a. Estilo sóbrio, com descrições moderadas.

b. Linguagem vibrante, cheia de metáforas.

c. Senso de humor sutil e velado.

d. Personalidade um tanto melancólica, pessimista.

e. Enfatiza os aspectos psicológicos das personagens.

3. (UCBA) Os romances Memórias póstumas de Brás Cubas e O mulato, do último quartel do século XIX, inauguram concepções estéticas e filosóficas que se opõem ao:

a. Romantismo.

b. Realismo.

c. Arcadismo.

d. Naturalismo.

e. Simbolismo.

4. (FGV-SP) Machado de Assis, a rigor, não foi seguidor fiel de nenhuma escola literária. No entanto, temos de convir que o autor não deixou de aceitar concepções próprias do:

a. Neoclassicismo.

b. Ultra-romantismo.

c. Realismo.

d. Futurismo.

e. Modernismo.

5. (EU-Ponta Grossa) A ironia, apontada como uma das características marcantes da obra realista de Machado de Assis, tem como fonte:

a. a origem humilde do autor, que o leva a satirizar a burguesia.

b. os preconceitos sociais da época, que marginalizaram o autor.

c. uma visão crítica da sociedade, que caracteriza a ficção realista.

d. as idéias republicanas do autor dentro de uma sociedade monarquista.

e. saudosismo do autor em relação à época do Império.

6. (EU-BA) A respeito da ficção de Machado de Assis, pode-se afirmar que

a. se desenvolveu do Romantismo para o Naturalismo, consagrando-se sobretudo nas crônicas políticas e nos contos satíricos.

b. amadureceu sob a influência de José de Alencar, de quem tomou os temas e o estilo, tal como se vê em Quincas Borba.

c. é exemplo típico da literatura naturalista, sendo apenas superada pela obra-prima O Cortiço, de seu mestre Aluísio Azevedo.

d. representa a conquista da maturidade da literatura nacional a partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas.

e. atingiu com Ressurreição e A mão e a luva o plano mais alto de nossa literatura de expressão realista.

7. (FCC-BA) Memórias Póstumas de Brás Cubas é considerado romance divisor de águas da obra machadiana porque, a partir dele, o autor

a. assume de vez a visão romântica da realidade, apenas esboçada nos romances da chamada primeira fase.

b. se insere na estética naturalista, ao denunciar as mazelas sociais, os casos patológicos e os aspectos mais repugnantes da sociedade.

c. procede a uma retificação da própria obra, através da voz de personagens por meio das quais renega os valores da primeira fase.

d. antecede as conquistas modernistas, com uma postura crítica diante da civilização industrial e uma atitude de denúncia das misérias do mundo rural.

e. desmitifica as idealizações românticas e assume uma visão crítica que, despindo as aparências que encobrem a realidade, busca as razões últimas das ações humanas

8. (UFRS) Assinale a alternativa que preenche corretamente as lacunas do trecho abaixo.

"Os perfis femininos criados por Machado de Assis revelam, por exemplo, mulheres preocupadas em ascender socialmente e em manter as aparências. Assim, hipócrita e dissimulada, ....., de ....., assemelha-se à inescrupulosa ...., ávida pelo dinheiro de Rubião, em ..... ."

a. Conceição - Quincas Borba - Marcela - Uns Braços

b. Marcela - A Cartomante - Flora - Dom Casmurro

c. Virgília - Memórias Póstumas de Brás Cubas - Sofia - Quincas Borba

d. Capitu - Memorial de Aires - Genoveva - Missa do Galo

e. Sofia - Esaú e Jacó - Virgília - O Alienista

9. (USF-SP) Machado de Assis, na sua obra de ficção narrativa:

a. começou romântico e como tal se manteve na idealização com que descreve as personagens de suas obras.

b. condenou o romantismo e introduziu no Brasil o realismo, que só trocou pelo naturalismo.

c. investigou com profundidade o homem universal, nas personagens cotidianas, indo além da crítica à sociedade.

d. centrou suas críticas na sociedade de sua época; por isso está hoje ultrapassado: o homem moderno não pode ver-se em suas personagens.

e. norteou-se pelos princípios do naturalismo, ressaltando sempre os fatores biológicos do comportamento humano.

10. (UFSCar-SP) O que sobressai na atividade criadora de Machado de Assis é:

a. a minuciosa busca de soluções aperfeiçoadoras, o que só se conseguiu após inúmeros e continuados exercícios.

b. a grande capacidade de inspiração, uma vez que a quantidade de romances que escreveu foi facilitada pela improvisação.

c. equilíbrio entre o improvisador, o inspirado e o artista, que é demonstrado pelas obras de valor desigual, que ocorrem no decorrer de sua produção literária.

d. a sinceridade com que manifesta, por linguagem desprovida de metáforas em cada romance que escreveu, as várias fases de sua biografia.

e. ter iniciado a carreira escrevendo romances realistas, convertendo-se, mais tarde, ao Naturalismo.

11 – Em relação à obra "Contos Fluminenses" de Machado de Assis, assinale o que for correto.

a) A morte como desfecho de desilusão amorosa é o tema do conto "Luis Soares".

b) Os contos "A mulher de preto" e "Confissões de uma viúva moça" prenunciam a temática da suposta traição na obra machadiana.

c) O narrador em "Confissões de Augusta" é onisciente.

d) Os contos apresentam uma característica comum: os acontecimentos são permeados de explicações aos leitores por parte do narrador.

e) O conto "Luis Soares" faz alusão à opereta Barbe Bleue de Jacques Offenbach.

LITERATURA DA UFT 2012 - INFANCIA GRACILIANO RAMOS

RESUMO DA OBRA : INFÂNCIA


GÊNERO: NARRATIVO

CATEGORIA: ROMANCE

ESTILO: MODERNISMO – PROSA - REGIONALISMO

GRACILIANO RAMOS

Graciliano Ramos nasceu em Quebrângulo, Alagoas, em 27 de outubro de 1892. Fez apenas os estudos secundários em Maceió. Após rápida passagem pelo Rio de Janeiro, fixa-se em Palmeira dos Índios, interior de Alagoas; jornalista e político, chega a exercer o cargo de prefeito da cidade.

Estréia em livro em 1933, com o romance Caetés; nessa época trabalha em Maceió, dirigindo a Imprensa Oficial e a lnstrução Pública, e trava conhecimento com José Lins do Rego, Rachel de Queiroz e Jorge Amado. Em março de 1936 é preso por atividades consideradas subversivas sem, contudo, ter sido acusado formalmente; após sofrer humilhações de toda sorte e percorrer vários presídios, é libertado em janeiro do ano seguinte. Essas experiências pessoais são retratadas no livro Memórias do cárcere

Graciliano Ramos é hoje considerado por grande parte da crítica nosso melhor romancista moderno. Além disso, é tido como o autor que levou ao limite o clima de tensão presente nas relações homem / meio natural, homem / meio social, tensão essa geradora de um conflito intenso, capaz de moldar personalidades e de transfigurar o que os homens têm de bom.

O crítico Antonio Candido divide a obra de Graciliano em três categorias:

a) Romances narrados em primeira pessoa (Caetés, São Bernardo e Angústia), nos quais se evidencia a pesquisa progressiva da alma humana, ao lado do retrato e da análise social.

b) Romance narrado em terceira pessoa (Vidas secas), no qual se enfocam os modos de ser e as condições de existência, segundo uma visão distanciada da realidade.

c) Autobiografias (Infância e Memórias do cárcere), em que o autor se coloca como problema e como caso humano; nelas transparece uma irresistível necessidade de depor.


Infância - Graciliano Ramos

Publicado em 1945, Infância é uma autobiografia de Graciliano Ramos que prova ser possível uma obra somar os elementos pessoais com os sociais. Muito do que o autor confessa em suas memórias são problemas que afetaram não só a ele mesmo, mas também o seu meio. Sua dor é também a dor de nosso mundo.

Além disso, esse livro lida com elementos que nos fazem entendê-lo como base de todo o universo literário do autor. Nele vemos temáticas que vão povoar suas obras-primas: São Bernardo, Vidas Secas e Angústia.

O primeiro aspecto que chama a atenção é a descrição de Graciliano como uma criança oprimida e humilhada, pois é um ser fraco diante de adultos, mais fortes. Este é um dos cernes de sua visão de mundo: a opressão. Quem tem poder, naturalmente massacra, sufoca.

Também faz parte do seu escopo a secura das relações humanas. De acordo com a obra em questão, esse defeito já vem do seio da família. Sua mãe era extremamente ríspida, fria, o que se percebe pelos apelidos com os quais se dirigia a Graciliano Ramos: cabra-cega (por causa de uma doença que teve nos olhos que impossibilitava sua visão) e bezerro-encourado (bovino órfão que recebia o couro de um outro, já morto, para que a mãe deste, enganada pelo cheiro, permitisse a amamentação do desprestigiado).

Outro ponto perturbado na relação familiar é seu pai, que se mostra extremamente autoritário, déspota e tirano em muitos momentos. O episódio em que surra o filho por achar que este havia sumido com um cinturão (descobre depois que a acusação era falsa) é dos mais dramáticos. Talvez só perca para o momento em que esse autoritarismo se mistura a abuso de poder e injustiça em cima do mendigo Venta-Romba. Discretamente o narrador procura uma justificativa, como os problemas financeiros do pai, mas o estrago na confiança no ser humano já era irremediável.

A situação do protagonista é, portanto, de constante opressão. Mesmo quando não se faz de forma explicitamente violenta, realiza-se por meio dos risos e gozações extremamente humilhantes. Até seu processo de alfabetização é angustiante. Nasce aqui o escritor pessimista, amargo, desencantado com o mundo.

No entanto, sua salvação, ou pelo menos válvula de escape, vai-se manifestar na literatura. Acometido pela doença que o fez ficar temporariamente cego e preso em seu quarto, desperta para o encantamento das palavras, analisando-as, namorando-as, principalmente nas cantigas folclóricas entoadas por sua mãe durante os trabalhos domésticos. Um salto maior surge no contato com a enorme biblioteca de Jerônimo Barreto, que permitiu ao garoto ampliar seus horizontes para um mundo diferente da mesquinharia em que havia crescido. E o escritor nasce com o apoio de Mário Venâncio.

Liberto, graças à literatura, distancia-se da infância. Entra no universo dos adultos. Parte para o mundo. Vai torto, desajeitado, mas firme, resoluto. Sua arte de manejar as palavras será sua arma. Por demais eficiente.

A seguir, segue-se um resumo dos capítulos que compõem a obra.

Nuvens

Este capítulo, em meio às nuvens em que está mergulhado o passado mais remoto do narrador, é uma pequena súmula de toda a obra. Flagra-se a personagem descrevendo os pais não como seres humanos, mas como seres ineficientes na afetividade, secos e opressores. A animalização na descrição deles é constante. A literatura, na forma de cantigas folclóricas, é apresentada como elemento capaz de aliviar o cotidiano sufocante da criança Graciliano Ramos.

Manhã

Retomam-se temas do capítulo anterior, ligados à opressão a que é submetido o protagonista. Abre-se especial atenção aos seus avôs, o paterno muito culto e o materno forte, rude, não civilizado. Há destaque para a descrição da natureza do sertão.

Verão

Com a chegada do verão, vem a seca. A Natureza, pois, é descrita como aplacadora, mais um elemento opressor em sua infância, tanto que lhe causa uma sede terrível em certa ocasião. Neste capítulo o pai é apresentado com uma figura explosiva, uma qualidade que o narrador só vai entender muito tempo depois, quando toma consciência das dificuldades econômicas pelas quais o velho passava.

Um Cinturão

Capítulo fortíssimo. O pai, muitas vezes descrito de forma fria como “o homem”, não encontra seu cinturão. Inquire Graciliano, que, assustado, não consegue falar nada. Descarrega sua raiva surrando a criança. “Aliviado”, ao voltar para a rede acaba descobrindo o objeto que tanto procurava. Nota-se que a intenção do agressor é reparar o erro, mas sentimentos devem ter-se misturado, como orgulho, vaidade e medo de perder a autoridade. Talvez um desses elementos, ou todos, justifiquem o fato de o pai hesitar (queria pedir desculpas?) e acabar voltando para a rede e dormir. A conseqüência desse episódio é grave: Graciliano ganha uma desconfiança em relação à justiça dos homens.

Uma Bebedeira

Graciliano e sua família estão fazendo visita. Ganha destaque neste capítulo o incômodo que as roupas de visita provocam na personagem, principalmente os sapatos. Lembra o capítulo “Festa”, de Vidas Secas, do mesmo autor. É relevante também a presença das mulheres da casa visitada, que trarão um bem-estar excessivo, quase erótico, ao menino. Elas é que acabam embebedando-o. O álcool, dominando-o, dá-lhe sensação de poder, fazendo-o ter certas liberdades, desafiando o olhar repressor de sua mãe.

Chegada à Vila

A família de Graciliano larga o campo e se desloca para a vila, descrita como um mundo estranho para o menino. Fica abismado com o ajuntamento de casas, pela falta de espaço e mais ainda quando vê um sobrado, ou, no seu entender, uma casa em cima da outra.

Vida Nova

Na Vila, o pai do narrador torna-se comerciante, o que o mergulhará em várias dificuldades. É neste capítulo que o protagonista fala de seu medo de fantasmas, o que o faz dormir num colchãozinho na sala. Dedica-se, nas madrugadas, a prestar atenção ao ruídos dos sapos, que, em sua linguagem, falariam das mesmas opressões que o menino vivencia em sua tosca infância.

Padre João Inácio

Este capítulo dedica-se à descrição do Padre João Inácio, extremamente rude com seus fiéis. No entanto, mostrou-se extremamente dedicado a doentes graves. Torna-se personagem dura, mas admirável. Dessa forma, Graciliano acaba aprendendo que certas pessoas têm em sua rispidez apenas uma casca que envolve um caráter humano.

O Fim do Mundo

Outro capítulo que nos surpreende apresentando uma personagem grosseira mostrando um lado humano. Dessa vez é a mãe do protagonista, que, após ler um texto religioso sobre o fim do mundo, mergulha em um desespero imenso. Abraça-se ao filho e desmancha-se em choro. Incrível é notar como pessoas tão massacradas têm, ainda assim, um apego à existência e ao mundo injusto em que vivem.

O Inferno

Aqui se revela o ingrediente que serviu de base para o capítulo “Inferno”, de Vidas Secas. Graciliano pergunta à mãe o que é o Inferno. Ao ouvir a explicação dela, faz questionamentos baseados na lógica e na curiosidade. Se os diabos agüentavam o fogo do Inferno e se as pessoas condenadas passavam a eternidade ardendo lá, então, no seu entender infantil, elas transformavam-se em demônios. Além disso, pergunta se a mãe já havia estado no Inferno. Diante da negativa, pergunta então como ela sabia as características do Profundo. Ela responde, então, que se baseava no que haviam dito os padres, homens de muito estudo. A mesma indagação: eles estiveram lá? Diante de mais uma negação, o garoto mostra-se incrédulo diante da existência do Inferno, o que lhe vale uma surra de chinelo. Apanha porque questiona, o que pode ser entendido por desrespeito. Apanha porque a força é o último argumento – falho, por sinal – quando todos os outros não funcionam.

O Moleque José

Descrição de um garoto que trabalhava para o pai do protagonista. Mais pobre, revela, no entanto, superioridade em relação ao narrador, pois tem mais experiência de vida e maior conhecimento de mundo. O capítulo encerra-se com o relato de um episódio em que o pai resolve descarregar sua raiva castigando José. Graciliano, num misto de burrice e sadismo, sentimentos disfarçados na vontade de ajudar na punição, resolve ferir o pé da vítima. O pai, diante de ato tão vergonhoso, pára de bater em José e transfere sua fúria para o filho.

Um Incêndio

Outro capítulo em que aparece o raciocínio lógico contra o religioso. Guiado pelo moleque José, Graciliano vai ver um incêndio que destruiu a moradia de gente pobre. É quando se depara com algo asqueroso: um cadáver carbonizado. Era de uma mulher que havia entrado em sua casa em chamas para salvar um quadro de Nossa Senhora. Não entende como a santa havia permitido que tal acontecesse. Não aceita nem mesmo a alegação de que deveriam ser os desígnios divinos, ou então que agora a vítima estava salva, no Paraíso. Termina a narrativa amaldiçoando a divindade e o moleque José por terem feito provocado tanto mal-estar nele diante de uma cena tão escabrosa.

José da Luz

Autoridade policial da vila, José da Luz proporciona uma excelente experiência para o protagonista. O medo que sente dele transforma-se em amizade, pois é alguém que tem tempo e disposição para conversar com Graciliano, sem intenção de massacre ou humilhação. É, pois, quem o aproxima da espécie humana.

Leitura

O pai de Graciliano convence-o (numa forma que o deixa desconfiado, pois usa um discurso manso) a se alfabetizar, alegando que isso iria permitir com que tomasse posse de uma arma poderosíssima. Num primeiro instante, o narrador mostra-se incrédulo. Mas a descrença é rapidamente substituída pela angústia, pois a aprendizagem é feita de forma dolorosa, violenta e sufocante, pois não respeita o ritmo e o universo cultural do menino. Mas é apenas o início de uma longa agonia.

Escola

A agonia de Graciliano aumenta na escola, onde continuará seu problemático processo de alfabetização. Há aqui, assim como nos capítulos seguintes, uma crítica moderníssima ao sistema educacional: como ensinar eficientemente, se o que é apresentado aos alunos está muito distante da realidade deles. Esse elemento fica claramente representado na forma “ter-te-ão”, pedra que aparece no caminho do protagonista. Fica pasmo diante de uma palavra que não tem noção do que seja. O mais absurdo é que nem sua professora sabe do que se trata.

D. Maria

Capítulo dedicado à descrição da primeira professora de Graciliano, mulher limitada em seus conhecimentos, mas que, com seu jeito meigo, atencioso e compreensivo, perdoando os erros dos alunos, acaba tornando-se um oásis no difícil processo de aprendizagem do protagonista.

O Barão de Macaúbas

Vencida, a muito custo, a primeira fase de alfabetização, Graciliano passa para um novo estágio, em que tem de mexer com um livro de leitura do Barão de Macaúbas. Este capítulo contém fortes críticas à ineficiência e inadequação dos métodos de ensino. Há também um saboroso ataque à literatura em voga, dotada de uma linguagem rebuscada, como um cipoal no qual o leitor-menino acabava se enroscando e sofrendo cada vez mais. É impagável o seguinte trecho, excelente resumo do que está sendo exposto: “e a mosca usava adjetivos colhidos no dicionário” (é sabido que o estilo de Graciliano Ramos é extremamente enxuto, seco, econômico. Dessa forma, o rebuscamento de linguagem de suas primeiras leituras é o extremo oposto do seu fazer literário. É também interessante lembrar que o estilo a que se dirige a crítica provavelmente deve ter sido influenciado pela escola literária que fazia sucesso na passagem dos séculos XIX para o XX, momento em que o autor estava no colégio: Parnasianismo).

Meu Avô

Este capítulo apresenta o avô da personagem dedicando-se a ajudar na alfabetização de Graciliano. No entanto, realiza seu trabalho de uma forma toda torta, pois sua rispidez traumatiza mais ainda a criança. Aliás, torta é a relação entre os dois, pois mistura elementos díspares. Sua rispidez é a maneira de ser afetivo. Seu incentivo à leitura vai por um processo desincentivador.

Cegueira

Momento doloroso na vida de Graciliano. Acometido por uma doença que inchava seus olhos, inflamando-os, ficava impossibilitado de enxergar. Cego, mergulhado em dores terríveis, acaba por ficar preso a seu quarto. Introspectivo, recorda o apelido com o qual era chamado até por sua própria mãe: cabra-cega. Não fica irritado com o nome em si, mas com o que essa palavra fazia lembra, pois era usada em uma trova infantil que terminava com obscenidade. E ao recordar essa alcunha, lembrava a outra que sua mãe usava (é incrível a sinceridade ríspida com que a mãe de Graciliano se dirigia a ele. Mas isso não se restringia aos apelidos. Não escondia a impaciência e, muitas vezes, asco com relação à doença do filho), bezerro-encourado, pois as roupas que o menino usavam não tinham caimento perfeito nele, ficando sempre folgadas. Mais uma vez, fica chateado com as conotações, pois tal bezerro era empurrado para a vaca. Estabelecia-se, pois, referência ao fato de Graciliano não ser aceito por sua mãe, de ser um enjeitado. Seu alívio surge quando, no clímax do desamparo em meio à escuridão da cegueira, desperta, graças às cantigas folclóricas que ouve de sua mãe durante as lidas domésticas, uma atenção e uma paixão pelas palavras. Começa a nascer o escritor.

Chico Brabo

Mais aprendizados o protagonista vai ter em relação ao caráter humano, dessa vez proporcionados por um seu vizinho, Chico Brabo. Socialmente, na rua, era uma pessoa de extrema amabilidade. No entanto, uma outra personalidade era revelada quando essa gentil personagem se fechava em sua casa. Na escuridão de sua cegueira, Graciliano de forma angustiada podia ouvir os gritos de Chico Brabo e, muitas vezes, a surra que dava no seu empregado, um garoto chamado João. Além disso, chama a atenção a estranha relação que se estabelecia entre opressor e oprimido, como se um fosse necessário ao outro. Havia o conflito, as pancadas surdas e depois tudo voltava ao normal, como se nada tivesse acontecido – Chico amável, João brincalhão.

José Leonardo

Descrição de uma personagem que se destoa da galeria apresentada até aqui. Basta lembrar que é comparada a um relógio, pois é justo, calmo, equilibrado, limpo. É um ser que até poderia ser considerado progressista em relação aos demais.

Minha Irmã Natural

Este capítulo serve para amesquinhar o caráter do pai de Graciliano. Em primeiro lugar, o velho sente-se diminuído por ter espalhado poucos filhos no mundo, limitado que era por sua condição econômica. Era como se o seu papel de macho fosse reduzido. E dentro desses poucos relacionamentos anteriores ao casamento havia nascido a irmã natural do autor, sempre tratada de forma distante e respeitosa pelos demais familiares. Até o momento em que a menina iniciou namoro. Ganha ferrenha oposição do pai, mas está apaixonada. Foge de casa para se unir ao seu amor. O narrador deixa subentendida a idéia de que fora a saída de que o pai mais tinha gostado, pois poupava-o das despesas matrimoniais.

Antônio Vale

Este capítulo tematiza as dificuldades que o pai do protagonista tem em relação ao comércio, pois algumas mercadorias não vendem muito, outras estão micadas, além de haver o problema dos clientes caloteiros. Destaque é dado a Antônio Vale, homem com fama de não pagar suas dívidas, mas com quem o pai do narrador estabelece negócio. Diante do atraso do pagamento, o comerciante mergulha na agonia, maldizendo o sujeito com quem estabeleceu transação. A situação piora quando tem conhecimento de que o homem está para partir. Mas ocorre um anticlímax humilhante: Antônio Vale surge apenas para cumprir a sua palavra e pagar seus débitos.

Mudança

Diante da enorme dificuldade financeira, o pai do narrador desiste de ser comerciante, abandona a vila e volta para Viçosa, tentar ser novamente agricultor.

Adelaide

Graciliano volta à escola, agora de D. Maria do O, personagem que, assim como sua família, servirá para o narrador descarregar um surpreendente racismo. É neste capítulo que se apresenta a prima Adelaide. Quase órfã, pois fora “abandonada” por sua família à instituição educacional, é humilhada pela professora e suas parentas, que jogam a menina em serviços domésticos, sem nem mesmo levarem em conta as amplas e fartas contribuições que os pais da garota dedicam ao colégio.

Um Enterro

Graciliano, na ocasião do enterro de um coleguinha, visita pela primeira vez um cemitério. Tudo para ele e seus companheiros é motivo de festa. Esquecem até que aquele ambiente povoava as histórias de assombração. Talvez isso se explique por essas narrativas passarem-se à noite, enquanto eles o adentravam durante o dia. No entanto, uma mudança drástica se processa. O narrador afasta-se do grupo e pára num lugar em que eram depositados ossos. É uma experiência terrível, pois acaba se tocando do futuro de todo ser humano. Desperta-se na personagem um pesado sentimento niilista.

Um Novo Professor

Graciliano muda de novo de escola. E mais uma vez derrama racismo, só que agora discreto. Seu novo professor é um mulato caracterizado como “pachola” e dotado de trejeitos afeminados. Gasta horas diante de um espelho, numa crise de vaidade terrível. Se está contente com seu cabelo, que temporariamente se mostra domado, tem um desempenho paciente como professor. Mas quando não está contente com as melenas ou com o tom da pele, torna-se extremamente rígido. No entanto, o elemento mais ácido está no irmão do professor, que um dia surgiu num desabafo, aparentemente para as paredes, de que tinha um lugar na sociedade. Provavelmente fora desrespeitado. Fica nas entrelinhas a idéia de que ele, o irmão, assim como Maria do O, eram personagens que lutavam por um espaço num meio preconceituoso, que empurrava os negros para a miséria e a marginalização.

Um Intervalo

Este capítulo é de fato um “intermezzo”. Graciliano realiza uma tentativa eclesiástica, servindo de coroinha. Mas seu desempenho é um desastre, o que o afasta dessas atividades. No entanto, ganha amizade com as mulheres ligadas a esse meio, o que gera um certo alívio a seu cotidiano tão massacrante.

Os Astrônomos

Num rasgo de bondade, o pai de Graciliano começou a acompanhá-lo na leitura de um livro. O menino fazia essa tarefa aos tropeços, mas tinha um apoio, algo de que acabou gostando. Mas a generosidade era apenas fase. De cabeça quente com os negócios, não mais se interessou no brinquedo do menino, deixando-o frustrado. Pede a ajuda, pouco depois, a sua parenta Emília, que questiona por que não fazia a tarefa sozinho. Incentiva-o, pois, nesse desafio, dizendo que a leitura era uma coisa maravilhosa. Usa até uma metáfora que o garoto acha exagerada: os astrônomos são capazes de ler maravilhas no céu. Mesmo discordando da imagem (a figura de linguagem estava muito acima da capacidade intelectual do protagonista), entrega-se à tarefa, que se vai revelando suadamente prazerosa. Mas, ao contrário dos astrônomos, vai-se dedicar a textos em que consiga se identificar, como atesta o final do capítulo: “Os astrônomos eram formidáveis. Eu, pobre de mim, não desvendaria os segredos do céu. Preso à terra, sensibilizar-me-ia com histórias tristes, em que há homens perseguidos, mulheres e crianças abandonadas, escuridão e animais ferozes”.

Samuel Smiles

Mais um passo importantíssimo. Graciliano tem agora um novo professor, homem que demonstra autoridade por ter domínio de conhecimento. Tanto que corrige a leitura do protagonista quando lê a palavra “Smiles”. Apesar de “smailes” ir contra todo o conjunto de valores do menino, a segurança, a firmeza da retificação foi argumento eficiente. Tanto que quando lê essa palavra diante dos trabalhadores do seu pai, não se importa mais com as risadas deles. Antes o afetavam. Agora, tem a convicção do conhecimento, da sabedoria. Eles é que estavam errados, nas trevas da ignorância. Está protegido.

O Menino da Mata e o seu Cão Piloto

Graciliano dedica-se à leitura de um livro, “O Menino da Mata e o seu Cão Piloto”, apesar da crítica depreciativa de Emília, que se baseou apenas no fato de o autor da obra ser protestante. Por um instante o narrador balança em seu desejo de conhecer a obra, mas no fundo sente não haver lógica em tal critério. Dedica-se ao volume, mas sai frustrado, pois as personagens morrem. Não houve compensação da dor da vida que levava. Pelo contrário, ocorreu aguçamento. Por isso chora.

Fernando

Este capítulo apresenta uma personagem protegida do coronelismo que existia na região: Fernando. Por causa disso, dedica-se a inúmeras maldades e crimes, até mesmo abusando sexualmente de várias mulheres. Torna-se, aos olhos do narrador, o monstro, o vilão. Mas é alguém que vai proporcionar ao garoto mais uma experiência sobre o caráter humano. Houve um momento em que haviam desmontado um caixote. O vilão acaba dando uma bronca nos trabalhadores, porque estes haviam deixado várias tábuas no chão e uma delas podia, com seus pregos expostos, ferir o pé de uma criança desavisada.

Jerônimo Barreto

Graciliano havia esgotado seu diminuto universo de leituras. Como aumentá-lo? É aconselhado a pedir ajuda a Jerônimo Barreto, dono de uma vasta biblioteca. É tocante a humildade com que, com estranha desenvoltura, o menino faz seu pedido. É tocante também o cuidado que tem com o livro (o primeiro volume fora O Guarani, de José de Alencar), embrulhando a capa em papel, tomando cuidado até para não amassar as páginas. E o resultado também é tocante: o universo cultural do garoto vai ser imensamente ampliado. Tanto que leva vantagem na escola. Sempre tinha notas mais baixas nas provas, pelas já conhecidas dificuldades em relação ao estudo, enquanto os outros alunos se destacavam. No entanto, esses decoravam informações que após a prova eram esquecidas. Um dia, o professor aplicou uma prova surpresa e o pouco que Graciliano conhecia tornou-se muito em relação aos outros alunos. Poderia ser um conhecimento que não se encaixava integralmente ao currículo, mas era algo que impunha respeito. O protagonista já estava, pois, derrubando seus obstáculos, graças à leitura.

Venta-Romba

Este capítulo é irmão de “Um Cinturão”. Nele, ficamos sabendo que o pai de Graciliano Ramos havia sido escolhido para juiz substituto. Torna-se, portanto, uma autoridade. Em certo dia, um mendigo, Venta-Romba, entra inadvertidamente na casa do protagonista, chega até a sala para pedir esmola. Causa tumulto. A mãe rispidamente pede para que ele se retire. O pobre fica atrapalhado, sem reação, estático. Foi pior, pois aquilo foi interpretado como uma afronta. Imediatamente chega o pai, com um soldado, determinando a prisão do invasor. A pífia figura apenas pergunta o porquê de o doutor estar fazendo aquilo, o porquê de estar sendo preso. Mal-estar. Mas não havia como voltar atrás. Tinha que se demonstrar autoridade. E o coitado foi levado para a prisão. A partir desse episódio, aumentou a desconfiança do protagonista nas autoridades e na justiça. E também foi a partir daí que se tornou um filho desafiador e desrespeitador.

Mário Venâncio

Outro passo importantíssimo para a libertação de Graciliano. Graças à influência de Mário Venâncio, entra para uma sociedade teatral. Cria-se uma escola dramática. Além disso, faz parte de um jornal literário, o Dilúculo. Esse termo, que significa “alvorada”, lembra as palavras-jóias do Parnasianismo. E de fato a linguagem dos demais redatores é por demais rebuscada, decepcionando o narrador. Era o que estava na moda na época, o que o fazia sentir vergonha de não gostar dela, muito menos dos textos e dos temas várias vezes abordados. Mas intui que está com a razão. Traz imbuídas as mudanças modernistas. Nasce, aqui, o escritor.

Seu Ramiro

Como juiz substituto, o pai de Graciliano sente-se na obrigação de hospedar constantemente pessoas. Uma delas, no seu raciocínio pragmático, poderia trazer-lhe dividendos políticos e econômicos. É por causa disso que acaba conhecendo Seu Ribeiro, homem que inspirava autoridade e que viera para implantar uma sede maçônica em Viçosa. Até o pai embarca nessa empreitada. Mas decepciona-se, muito provavelmente porque o sujeito desaparecera, devendo ao comerciante uma considerável soma em dinheiro.

A Criança Infeliz

Este capítulo conta a apresentação de uma personagem que consegue ser mais desgraçada que o narrador. Ninguém lhe tem respeito, nem mesmo sua família. Seu pai o espancava constantemente, sob a alegação de que não prestava. Na escola, era isolado e quem se aproximava dele era execrado. Até o professor se dirigia a ele de maneira claramente ofensiva. O motivo para tamanha aversão não fica claro. Apenas algo fica no ar, quando se diz que os garotos mais velhos é que se comunicavam com ele e por meio de um código secreto. E, como produto de todo esse meio massacrante, acaba por se tornar um bandido da pior espécie e dono da várias mulheres. É na casa de uma delas que termina por ser assassinado pelos seus inimigos.

Laura

Laura é o nome da famosíssima musa de Petrarca, o que cria toda a imagem da mulher como um ser puro e sublime. Coincidência ou não, esse é o nome da paixão que Graciliano vai ter na escola. E ela marca as mudanças que o próprio protagonista sente em seu corpo. Esta crescendo. O ponto mais interessante é sua iniciação sexual, meio atrapalhada, com Otília. Deixa de lado aquela idealização provocada pela figura de Laura. Tanto que o livro O Cortiço, que tinha escondido por detrás de sua prateleira, depois de conhecido os caminhos da carne, é retirado de sua reclusão e posto à frente. Já não está mais na infância.¹

QUESTÕES SOBRE GRACILIANO RAMOS E INFÂNCIA



1. (F.C. Chagas-SP) O narrador, que também é personagem, conta sua história: foi trabalhador braçal da fazenda de que se tornou proprietário, por meios lícitos e ilícitos. Casou-se porque "sentia desejo de preparar um herdeiro para as terras". No final, reconheceu que "estragara" sua vida e a de seus dependentes, por força da "profissão" que adotara. Esses dados identificam:

a. Fabiano.

b. Brás Cubas.

c. Coronel José Paulino.

d. Paulo Honório.

e. Bentinho.



2. (PUCCAMP) A leitura de romances como Vidas Secas, São Bernardo ou Angústia permite afirmar sobre Graciliano Ramos que

a. sua grande capacidade fabuladora e o tom lírico de sua linguagem servem a uma obra dominada pelo impulso, em que se mesclam romantismo e realismo, poesia e documento.

b. sua obra transcreve as limitações do regional ao evoluir para uma perspectiva universal, ao mesmo tempo que sua expressão parte para o experimentalismo e para as invenções vocabulares inovadoras.

c. sua obra, preocupada em fixar os costumes e as falas locais do meio rural e da cidade, é um registro fiel da realidade nordestina, quase um documentário transfigurado em ficção.

d. sua obra, toda condicionada pela realidade humana e social de uma árida região de coronéis e cangaceiros, apresenta uma narrativa linear, mas de linguagem exuberante, própria dos grandes contadores de histórias.

e. tanto o enfoque trágico do destino do homem ligado às raízes regionais quanto a análise dos conflitos existenciais do homem urbano conferem uma dimensão universal à sua obra.



3. (F.C. CHAGAS) É um romance em que se aprofunda a análise das relações entre o homem e o meio, a partir do relato da vida de um retirante, sua mulher, seus filhos e uma cachorra, tangidos pela fome e pela opressão dos poderosos.

A afirmação acima refere-se ao romance:

a. O Quinze, de Rachel de Queiroz

b. Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa

c. O Sertanejo, de José de Alencar

d. A Bagaceira, de José Américo de Almeida

e. Vidas Secas, de Graciliano Ramos.



4. (EU-BA)

"O romancista intuiu admiravelmente a condição sub-humana do caboclo sertanejo, com a sua consciência embotada, a sua inteligência retardada, as suas reações devidas a reflexos condicionados por um sofrimento secular. Desta maneira, ao investigar o sentido de um destino coletivo, ele nos dá realmente a medida do homem telúrico, no seu estado primário, autômata e passivamente indiferente, nivelando-se com animais, árvores e objetos."

O trecho acima trata do escritor ....., mais especificamente de seu romance ..... cujo protagonista é .....

a. Graciliano Ramos - São Bernardo - Fabiano

b. José Lins do Rego - menino de Engenho - Paulo Honório

c. Graciliano Ramos - Vidas Secas - Fabiano

d. Jorge Amado - Jubiabá - Paulo Honório

e. José Lins do Rego - Fogo Morto - Bentinho



5. (UFRS) A década de 30, no Brasil, foi um momento de tomada de consciência da realidade nacional. Na literatura, os mais graves problemas sociais foram retratados objetiva e criticamente por escritores nordestinos; nas artes plásticas, depois das grandes mudanças da década de 20, também a realidade passou a ser tema freqüente. Assinale a alternativa que apresenta um escritor e um pintor, respectivamente, que abordem essa temática:

a. Erico Verissimo e Heitor dos Prazeres.

b. Graciliano Ramos e Cândido Portinari.

c. Raquel de Queirós e Anita Malfatti.

d. José Américo de Almeida e Iberê Camargo.

e. Dionélio Machado e Cícero Dias.







6 - Leia o texto a seguir e assinale com X as afirmações que lhe parecem corretas.

Nuvens

Meu pai e minha mãe conservavam-se grandes, temerosos, incógnitos. Revejo pedaços deles, rugas, olhos raivosos, bocas irritadas e sem lábios, mãos grossas e calosas, finas e leves, transparentes. Ouço pancadas, tiros, pragas, tilintar de esporas, baticuns de sapatões no tijolo gasto. Retalhos e sons dispersavam-se. Medo. Foi o medo que me orientou nos primeiros anos, pavor.

Depois as mãos finas se afastaram das grossas, lentamente se delinearam dois seres que me impuseram obediência e respeito. Habituei-me a essas mãos, cheguei a gostar delas. Nunca as finas me trataram bem, mas às vezes se molhavam de lágrimas - e os meus receios esmoreciam. As grossas, muito rudes, abrandavam em certos momentos. O vozeirão que as comandava perdia a aspereza, um riso cavernoso estrondava - e os perigos de toda espécie fugiam, deixavam em sossego os viventes miúdos: alguns cachorros, um casal de moleques, duas meninas e eu.



a. ( ) A linguagem é predominantemente técnica, pois não se verifica nela a função poética.

b. ( ) O texto, em prosa científica, destina-se apenas à razão do leitor.

c. (X) O texto possui linguagem polissêmica, diversidade de sentidos, o que caracteriza, portanto, um caso de Literatura.

d. ( ) O texto não é literário, sua linguagem é linear, sem intenção artística.

e. (X) Trata-se de prosa literária, pois produz uma realidade simbólica que leva o leitor a se afastar do cotidiano para apreender o mundo de maneira mais rica e profunda.



7- É possível estabelecer uma leitura comparativa entre Infância, de Graciliano Ramos, e Menino de Engenho, de José Lins do Rego. Com base na leitura das duas obras, assinale a alternativa INCORRETA.

A) Nas duas obras, a aprendizagem reflete um processo doloroso.

B) Infância e Menino de Engenho são relatos autobiográficos.

C) Infância e Menino de Engenho tematizam o descobrir a vida.

D) Nas duas obras, é retratado o chamado regionalismo nordestino.



8- A respeito da obra Infância, de Graciliano Ramos, NÃO se pode afirmar:

A) O narrador adulto que relata fatos vividos pela criança consegue elaborar uma fina sintonia entre o passado lembrado e o presente que o reconstrói.

B) O livro estrutura-se através de relatos fragmentários, fios de lembranças esparsos, formando capítulos que se constituem como memórias de Graciliano Ramos.

C) A narrativa deixa claramente demarcados os espaços delimitados do distanciamento temporal entre a voz narradora e o tempo da narrativa.

D) Na obra, o romancista maduro cataloga com precisão os acontecimentos passados para construir a sua história de meninice.



9- Graciliano Ramos, em seu livro INFÂNCIA, reflete sobre uma de suas marcantes impressões de menino.

Bem e mal ainda não existiam, faltava razão para que nos afligissem com pancadas e gritos. Contudo as pancadas e os gritos figura-vam na ordem dos acontecimentos, partiam sempre de seres determinados, como a chuvae o sol vinham do céu. E o céu era terrível, e os donos da casa eram fortes. Ora, sucedia que a minha mãe abrandava de repente e meupai, silencioso, explosivo, resolvia contar-me histórias. Admirava-me, aceitava a lei nova,ingênuo, admitia que a natureza se houvesse modificado. Fechava-se o doce parêntese – e isso me desorientava.



a) Ao se referir às violências sofridas quando menino, o autor compara-as a elementos danatureza (chuva, sol, céu). O que mostra ele, ao estabelecer tal comparação?

b) Esclareça o preciso significado, no contexto, da expressão “fechava-se o doce parêntese”.

Resolução

a) A comparação exprime a concepção infantil para a qual “bem e mal ainda não existiam” e, portanto, “as pancadas e os gritos” pareciam tão imotivados e incompreensíveis quanto fenômenos naturais como a chuva.

b) A expressão refere-se a alterações na atitude dos pais, que se tornavam subitamente brandos e afáveis. O “doce parêntese”, portanto, era o momento de afabilidade que funcionava como interrupção incompreensível da também incompreensível seqüência de punições (“pancadas e gritos”) infligida às crianças.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Arcadismo


ARCADISMO NO BRASIL OU NEOCLASSICISMO (1768-1836)

Contexto:
• Século das luzes(1700-1800)-Iluminismo (Razão, liberdade de pensamento, progresso científico e social)
• Elaboração e publicação da Enciclopédia, na França.
• A Revolução Francesa (1789)
• Em Portugal: o governo iluminista do Marquês de Pombal.
• Vila Rica,MG: Inconfidência Mineira.

Marco inicial:
Obras Poéticas(1768) - Livro de poemas de Cláudio Manuel da Costa.

Características:
• Influências ideológicas do Iluminismo.
• Influências estéticas do Classicismo greco-latino e renascentista.
• Racionalismo predominando sobre o sentimentalismo.
• Preocupação com a Educação Moral e Intelectual.
• Combate aos exageros verbais do Barroco.
• Linguagem mais simples, direta e objetiva.
• A natureza como modelo de sabedoria, harmonia e felicidade.
• Bucolismo, pastoralismo, exaltação da vida no campo.

Poetas líricos:
Cláudio Manuel da Costa: bom sonetista; temas: O amor não correspondido pela a amada, a preferência pela vida no campo à vida urbana, a consciência e a tristeza sobre a brevidade da vida. Tentou a poesia épica com o poemeto Vila Rica

Tomás Antônio Gonzaga: Na sua obra Marília de Dirceu celebra os amores desses dois personagens; linguagem simples, espontânea, musical. Cartas Chilenas, 13 cartas em forma de poemas; sátira política contra os desmandos administrativos do governador de Minas Gerais: circularam anonimamente.

Silva Alvarenga: No livro Glaura, canta os amores da pastora Glaura, num ambiente bucólico e natural: rondós e madeiras são as formas poemáticas usadas; produz ainda poesia satírica, didática e emblemática.

Alvarenga Peixoto: Obra reduzida, maneira irregular presa às convenções arcádicas, influências clássicas e mitológicas. Musa: A esposa Bárbara Heliodora, poesia encomiástica e comemorativa.


Poetas épicos:
• Basílio da Gama: escreveu O Uraguai – luta do exército luso-espanhol contra jesuítas e guaranis, pela posse da região dos Sete Povos das Missões, Sepé e Cacambo: Líderes indígenas; Pe. Balda: vilão; Lindóia, mulher de Cacambo, heroína: Deixa-se picar por cobra e morre para ser fiel ao marido. Valoriza o índio e sua cultura; tem caráter pré romântico. Ideologicamente apresenta forte antijesuitismo e defesa da política de Pombal. Poema escrito em versos brancos.

• Santa Rita Durão: Escreveu Caramuru – as aventuras do português Diogo Álvares Correia entre os índios da Bahia e episódios da História do Brasil: destaque ao episódio da morte de Moema: preterida por Diogo, deixa-se morrer afogada ao tentar seguir a nado o navio que o levava à França com sua esposa, a índia Paraguaçu. Tem por modelo a epopéia Os Lusíadas, de Camões.